Jorge Jesus, um aspirante a Ferguson português?

Numa altura em que, apesar da renovação de Jorge Jesus estar praticamente assegurada, mas ainda carecer de confirmação oficial, importa tentar perceber o porquê desta renitência súbita por parte do amadorense e o que essa indefinição pode significar na distribuição dos poderes e das autoridades no seio do clube da luz.

Apesar de ser um treinador pago a peso de ouro e mesmo tendo em conta o momento de rigor económico por que todos os clubes devem estar a passar, não parece que seja pela vertente financeira que o técnico ainda não tenha dado a resposta definitiva a Luís Filipe Vieira. Parece haver, neste momento, uma clara guerra de poderes que está a adiar a decisão final de ambas as partes. Mesmo não acreditando nos rumores saídos a publico que de que Jorge Jesus estaria a exigir a saída de António Carraça, a verdade é que não há fumo sem fogo e o afastamento/desaparecimento de Rui Costa dos círculos de decisão do clube é disso paradigmático. Com isto, é oportuno questionar quais os verdadeiros intentos do atual treinador do Benfica. Será que Jesus sente que para o seu trabalho de tornar efetivo, no que a títulos diz respeito, necessita de mais poderes a nível de decisão, não só relativamente a entradas e saídas do plantel, mas em relação a todas as questões que estejam direta ou indiretamente relacionados com futebol do Benfica? Se tal acontecer, estaremos na presença de um caso singular, não só no Benfica, mas em todo o futebol português. O certo é que com tudo o que conseguiu mudar no clube, com as grandes exibições ao longo destes quatro anos e com a consequente valorização de ativos e da própria marca Benfica, Jorge Jesus ganhou um estatuto que lhe permite poder ser já considerado o treinador com mais poder e margem de manobra durante todo o reinado de Luís Filipe Vieira no clube da luz. Nenhum outro teve uma voz tão ativa em tantas áreas do futebol benfiquista, como Jorge Jesus tem tido, o que por si só demonstra não apenas a confiança absoluta que o líder do clube deposita nele, mas prova também que tudo o que tem corrido menos bem nestes últimos anos tem sido da sua responsabilidade. Com esta indefinição, ainda que relativa, em torno da sua renovação, Jorge Jesus pode estar a demonstrar que todos os poderes que já lhe concederam podem não ser ainda suficientes para aquilo que ele deseja e para que o convençam a ficar. Se tal se verificar, e se todos os seus desejos forem atendidos, o Benfica poderá começar a próxima época com um Ferguson português no banco. Uma figura que, à imagem do que o mítico treinador escocês fez no Manchester United, chama a si todos os poderes de decisão e que não permite que ninguém interfira no seu trabalho.

Por outro lado, este facto vem também comprovar a confusão que se vive na hierarquia estabelecida no clube encarnado. Se, por um lado, não se percebe a verdadeira razão de Rui Costa, uma figura importante na conquista do último campeonato, ter sido afastado, também ainda não se conseguiu descobrir qual a verdadeira missão de António Carraça. A oficialização da renovação de Jorge Jesus será um momento oportuno para que todas estas questões fiquem esclarecidas e se defina, de uma vez por todas, qual o rumo que Luís Filipe Vieira pretende para o clube. Será que Jorge Jesus já terá feito o suficiente para exigir tanta confiança por parte do presidente e adeptos? Estará o futebol português preparado para acolher este modelo de gestão de uma equipa? Com o reforço dos poderes do treinador encarnado dentro da estrutura do Benfica, estarão reunidas as condições para que este volte a ter sucesso?

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar no VM aqui!): António Mota

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